Há um cartel de drogas liderado por Maduro na Venezuela, como afirma o governo Trump? Pesquisador diz que não é bem assim
31/08/2025
(Foto: Reprodução) EUA divulgam imagens de embarcações enviadas para a costa da Venezuela
Ao mesmo tempo em que os EUA estacionam uma frota de guerra de última geração e 4.000 militares perto da costa da Venezuela, o governo Trump reitera as acusações de narcoterrorismo contra o presidente do país, Nicolás Maduro.
Para Washington, Maduro é o chefe de uma organização criminosa chamada “Cartel de los Soles”, um poderoso grupo que atua no tráfico de drogas da América do Sul para os EUA, inclusive para desestabilizar a sociedade do país.
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A Casa Branca colocou o grupo na mira de seu aparato militar ao declarar as organizações de tráfico de drogas a organizações terroristas.
As conclusões do governo americano são contestadas, no entanto, por quem pesquisa o assunto.
Para especialistas, Maduro não seria o cabeça da organização, porque o Cartel de los Soles não é um grupo com uma hierarquia definida, mas uma “rede de redes” que facilita o tráfico de drogas e lucra com ele, composta de membros das mais diversas patentes militares e estratos políticos da Venezuela.
Apesar disso, há indícios de que Maduro, mesmo não sendo o líder, é um dos principais beneficiários de uma “governança criminal híbrida” que ele ajudou a instalar no país.
A definição vem do trabalho de Jeremy McDermott, cofundador e codiretor do InSight Crime, uma fundação que estuda o crime organizado nas Américas, já ouvidas por jornais como "The New York Times", o "The Washington Post" e "The Guardian".
Para ele, o Cartel de los Soles não é uma organização centralizada como alguns de seus “irmãos” mais famosos, como o Cartel de Sinaloa de “El Chapo” Guzmán ou o Cartel de Medellín, de Pablo Escobar.
Maduro e os chavistas, ele diz, não controlam o tráfico e se beneficiam da compra e venda de cocaína, mas distribuem concessões a militares e aliados, em troca de sua manutenção no poder (leia mais abaixo).
McDermott viveu e trabalhou em Medellín, na Colômbia, por 25 anos, analisando os cartéis de drogas que atuam na região.
Nicolás Maduro durante discurso em 28 de julho de 2025
REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
Nome dado pela imprensa
O pesquisador explica que s origens do esquema vêm de muito antes de Hugo Chávez assumir o poder.
O nome “Cartel de los Soles” não foi dado pelos próprios integrantes, e eles provavelmente se identificam como parte do grupo, nesses termos.
“O nome Cartel de los Soles foi cunhado pela mídia, primeiro para descrever elementos corruptos da Guarda Nacional da Venezuela que estavam envolvidos no tráfico de drogas”, explica McDermott.
Ele foi usado pela primeira vez em 1993, na época dos julgamentos dos generais da divisão antidrogas Ramón Guillén Davila e Orlando Hernández Villegas, acusados de ligações com o tráfico.
O nome (Cartel dos Sóis, em português) vem das insígnias militares usadas pelos generais venezuelanos.
“O termo tem sido usado desde então para descrever todas as atividades de tráfico de drogas enraizadas no Estado e foi usado pelo Departamento de Justiça dos EUA na acusação que incluiu Nicolás Maduro”, completa o pesquisador.
Suas origens, portanto, são anteriores à eleição que marcou a ascensão de Hugo Chávez ao poder no país, em 1999.
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Cartel e chavismo
Segundo o InSight Crime, alguns fatores levaram à criação de laços entre o tráfico de drogas e o chavismo. Em primeiro lugar, na vizinha Colômbia, as FARC – grupo guerrilheiro de esquerda que usava o tráfico como forma de se financiar – era alvo de uma intensa campanha do então presidente Álvaro Uribe, com apoio militar dos EUA.
Isso levou as FARC a levar parte de suas operações ao outro lado de uma fronteira mal vigiada.
Em 2002, Chávez foi brevemente destituído por um golpe de Estado, rapidamente reconhecido por Washington.
Ele estaria de volta ao poder em menos de 48 horas, mas, depois do episódio, “Chávez procurou angariar apoio entre os militares elevando-os a cargos governamentais influentes ou dando oportunidades de contratos lucrativos, fazendo vista grossa à crescente corrupção militar”, diz o centro de pesquisa.
“Durante a presidência de Chávez, até sua morte, o tráfico de cocaína aumentou e os traficantes colombianos que dominavam o comércio foram cada vez mais substituídos por autoridades venezuelanas que trabalhavam com grupos rebeldes colombianos”, afirma McDermott.
Maduro no poder
A lógica de tolerância à corrupção militar depois que Chávez morreu, em 2013, deixando Nicolás Maduro em seu lugar.
Sem o líder do movimento, e frente a uma crise econômica, Maduro e o chavismo buscaram uma forma de manter os militares a seu lado: uma delas foi tolerar a associação deles com o tráfico. As propinas recebidas também serviram como uma forma de complementar o salário, num momento em que o poder de compra despencava no país.
“Nesse contexto, o Cartel de los Soles evoluiu para um sistema de patrocínio criminoso no qual a cocaína é usada para ajudar a sustentar o governo de Maduro”, diz o InSight Crime.
De acordo com o centro de pesquisas, o governo Maduro tem a capacidade de “premiar” militares leais com a lotação em áreas onde o tráfico fornece mais rendimentos.
O apoio ao tráfico se dá em várias frentes: na proteção de rotas de passagens da droga, eventualmente no transporte da cocaína em veículos oficiais, na cobrança de “pedágios” ou até mesmo providenciando o embarque do produto em portos em aeroportos.
“O tráfico de cocaína aumentou desde que Maduro assumiu o poder em 2013, mas o que realmente mudou foi o sistema de governança criminal híbrida que Maduro instalou para se manter no poder, que fez com que o tráfico de drogas se tornasse cada vez mais controlado e regulado de dentro do regime”, afirma McDermott.
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‘Versão de Hollywood’
No entanto, o centro de pesquisa aponta que o governo dos EUA faz uma simplificação e cria uma “versão de Hollywood” ao dizer que Maduro é o chefe do cartel.
Em 2020, durante o primeiro governo Trump, sancionou Maduro sob a alegação de ele ser “um dos líderes e gerentes do Cartel de los Soles”.
“O Cartel de Los Soles buscava não apenas enriquecer seus membros e aumentar seu poder, mas também ‘inundar’ os Estados Unidos com cocaína e infligir os efeitos nocivos e viciantes da droga aos usuários nos Estados Unidos”, dizia o anúncio do Departamento de Estado.
Washington colocou uma recompensa para qualquer informação que ajude a prender Maduro, atualmente reajustada para US$ 50 milhões (cerca de R$ 270 milhões).
Essa visão é contestada pelo InSight Crime: os membros do grupo têm objetivos muito mais econômicos do que ideológicos, tanto que o tráfico partindo da Venezuela aumentou tanto em direção aos EUA quanto à Europa.
“Hoje, o termo genérico ‘Cartel de los Soles’ mascara o fato de que o eixo Estado-tráfico de drogas é menos uma rede administrada pelos militares e políticos chavistas e mais um sistema que eles regulam”, define o centro.
“As evidências disponíveis sugerem que o regime de Maduro mantém o controle desse sistema em âmbito nacional não por meio da intermediação de negócios de cocaína, mas alocando e distribuindo concessões, nomeações eleitorais e garantindo proteção.”
Após declarar o cartel como uma organização terrorista, o governo Trump mobilizou um arsenal militar no Mar do Sul do Caribe, perto da costa venezuelana, incluindo navios capazes de lançar mísseis teleguiados a centenas de quilômetros de distância.
Especialistas contestam a capacidade dos militares americanos em lutar contra o tráfico com armas de guerra.
A conclusão é compartilhada por McDermott. Para ele, isso não vai impedir a chegada da droga nos EUA: “Tudo o que a mobilização naval fará é dificultar o tráfico marítimo via Venezuela, levando o comércio para outros pontos de partida na América do Sul”.